sábado, 28 de outubro de 2017

Não passa passarinho com pressa, ferro ou fogo no pasto (nem a uva passa)

Cadê aquelas dunas quentes que paisageavam o deserto desolado de meu olhar? Cadê aquele meu oásis sonhado, que, de tão distante, agora já nem vejo? Onde foi parar aquele vislumbre juvenil do horizonte intangível que eu vivia para imaginar? Cadê aquelas horas em que eu divagava devagar, deveras atarefado em meio aos deveres diários diversos, vivendo meus desejos vivos em vívida esperança?

O tempo trouxe consigo aquela velha companhia manjada, velha de idade e vaidade, levou o brilho de meu no olhar e o mundo já não me surpreende mais, trouxe aquela doença chata que troca a perspectiva do amanhã colorido pelo cinza moroso da cidade... E a gente se acostuma, e já não vive sem sofrer com os mesmos dilemas morais.

Dói lembrar que um dia eu fui jovem, inocente e pueril.

Hoje tudo me parece tão distante, uma vaga lembrança de dunas no deserto um dia sentido, dunas modificadas pelo vento, e nunca nada será mais o que um dia já foi (ou fingiu).

Mudar deve ser normal, afinal... Perder parte de sua essência e substituir por mais mentiras desmedidas, mas o tempo também faz você perceber algumas coisas não vão mudar, você descobre a fantasia real: aquela que te move, que te alimenta e te faz vivo.

O certo cheiro, o certo toque, o certo certo.



E nada pode impedir o futuro que virá.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Acht Städten

Tu és aquela brisa que vem perto das onze e poucos da noite
Inesperada lambida fria no rosto perto da janela
És a lágrima que percorre os canais de meus olhos
Quando choro porque lembro de como me esqueci
Fugi de mim como quem foge de outrem
E assim, fugi de ti...

Mas o mundo é um moinho, amor
Pronto a girar sem nos tirar do lugar
Sempre a reduzir as ilusões a pó
De tempos em tempos me reencontro e me revejo
Com a mesma face que fez com que me perdesse de mim

A cada reencontro, tu segues aqui dentro
Presente em cada bombear deste gordo coração
E tu percorres meu corpo nesse sangue cíclico
Passeias pelo carrocel de minhas veias, irrequieta e incontida
Povoas meus pensamentos, compartilhas minha alma

Tu, que és boa causa de quem sou: nunca deixes de sorrir ao me reencontrar
Sempre diferentemente iguais, estaremos atados por cordas antigas demais,
Mas validados pela certeza inexplicável que ecoa deste ciclo:
"Eu temo, pois eu te amo"

por Izaque Valeze


terça-feira, 2 de maio de 2017

Modern Pop Love

5:40 am e o despertador já canta animado: "Olhei para o relógio, era uma da manhã"
Quando penso em não pensar, já é tarde e já pensei
Tentei desviar de teu olhar naquele dia, e acabei por te encarar
Agora me encontro perdido, procurando teu rosto na luz do luar
E sempre quando menos espero, lá vem você na memória outra vez
O coração em disparada como quem foge de um maníaco com uma motosserra
Como uma ninja vermelha carmesim que só se vê o vulto, você chegou
Invadiu feito MST e propôs a reforma agrária das terras vermelhas de meu coração
Ele que tava ali parado, resolveu produzir novamente
Morangos extraordinários pra quem gosta de morangos... Eu prefiro quiuí
Independente da fruta, elas agora preenchem meu coração, e o deserto virou pomar
Tarde de horas incontáveis da noite eu resolvo fechar os olhos e tentar dormir
E... Quando penso em não pensar, já é tarde e já pensei (outra vez)
Lá está você de novo, explodindo meu coração como explodiram a Estrela da Morte
Sorrio de besta com meus quiuís, te ofereço um morango e agora: hoje, só amanhã

domingo, 16 de abril de 2017

Si vis amari, ama

Dum tempo pra cá, tenho andado só
Mais um caminhante aleatório por ruas tortuosas
Eu não procurava nada, confesso
Já estava conformado em me perder no mapa
Mas, feito o Sol, teu brilho aquece e nunca se vai
Foi só olhar pra cima e vi
Nesse mundo prestes a explodir em bombas
Teu semblante arrasador, nuclear
Irradiava energia e pedia afago
Ao mesmo tempo, me continha e era contida
Meu coração explodiu
Meu corpo entrou em guerra
"De novo não!" - Dizia o comandante
Como obedecer uma ordem dessas?
Meus nervos tremiam feito bateria de metralhadora
Tiros surdos de porta-aviões eram as batidas do coração
O zumbido de um avião bombardeiro percorreu a espinha
Mesmo assim eu neguei
Tentei cumprir a ordem do comandante,
Mas meu espírito livre clamava por desobediência
E eu que nunca tive jeito para militar, me rendi
Agora minha soberania é tua
Leve o que quiser, só não me deixe aqui

por Izaque Valeze
 

domingo, 26 de março de 2017

Corrupta politici

Um raio corta o céu na escuridão da noite
Nuvens fatiadas numa fração de segundos
Thor agita seu martelo furiosamente
O estrondo ressoa oscilante
Como uma gigante chapa fina de metal agitada
Um céu forjado em raios
Nuvens se abrem em fúria
O céu chora lágrimas e raios

Há raiva
Há ódio
Há temor
Ninguém irá ascender essa noite
Ninguém irá banquetear
Ninguém irá sorrir

Disparos de medo e e gritos de terror
A terra bebe o sangue dos inocentes
Loki ri de tudo com olhos atentos
O estrondo ressoa um estampido seco
Como um canhão disparado à queima-roupa
Uma terra carmesim-pegajosa
Corpos se abrem em fúria
A terra sorve tudo avidamente

Há pena
Há dor
Há morte
Ninguém irá prevalecer hoje
Ninguém sabe como começou
Ninguém sabe se vai acabar

Discípulos de Loki
Rejeitados em Valhala
Rejeitados em Helheim
Distribuem sofrimento a troco da ilusão de riqueza
Matam-se pela glória que nunca terão
Condenados à desonra
Serão devorados por corvos
E ficarão na lama, por toda a eternidade