terça-feira, 28 de abril de 2026

Fantasia Estelar

Emaranhados num abraço transcendental

Juntos. Astronautas espaço sideral afora

Juntos. Intronautas coração adentro

Todo amor do universo manifestado num instante

Cruzamos planetas, galáxias, estrelas

Um mergulho no plasma de Alpha Centauri 

Na segurança de duas almas que se reencontram

Infinitos num amor além do espaço-tempo

Juntos, criamos nossa própria força gravitacional

E a própria existência em silêncio observou

Nossa alegria se metamorfoseando em carinho

Nosso retorno para os braços de onde nunca saímos

Emoção pura feita em verbo, verbo feito vida

Vida feita afeto, afeto feito emoção

Um ciclo perfeito de energia infinita

Um amor além do próprio amor


sexta-feira, 10 de abril de 2026

Universo

Ver a sua felicidade é um dos meus grandes desejos

Sentir o brilho do seu sorriso iluminando o universo

Te reconectando às estrelas de que somos parte

Mas o desejo nunca se limita a ser único

Ficarei muito feliz ao te ver cruzar galáxias

Mas eu seria uma supernova se te acompanhasse

Quero, mais do que ver, poder incandescer com você

Cruzar os múltiplos universos que existem e que ainda existirão

Viver em ti enquanto te dou também vida

Preencher o vácuo com luz e amor

Sonhar um futuro independente de passados

Criar aquilo que nunca sequer foi pensado ainda

Rasgar os céus de planetas ainda indescobertos

Queimar todos os nossos átomos até que restem apenas as rugas e cabelos brancos

Na certeza que tudo foi feito com toda a intensidade que podíamos

Para então, finalmente, recomeçar


quarta-feira, 8 de abril de 2026

Pai

Você sempre me foi ausente
Quando você não estava eu te queria
E quando você vinha, eu percebia:
Não era sua presença que me faltava
Era o conceito, talvez o mais puro que a criança tem
O ideal de um pai que ficou só nisso mesmo: nas idéias
E assim passei a primeira infância na ânsia do te querer
E na decepção do te encontrar
Em meio aos gritos, brigas e socos na mesa
Morria um conceito, morria um pai que eu sonhava
Isso é muito fácil perceber hoje
Mas não pra criança, essa não sabe de nada a não ser sentir
E na confusão do não saber, eu senti
E senti muito, e todo esse luto foi internalizado
Afinal, se só eu não tenho esse pai-conceito, obviamente a culpa é minha
Talvez devo ser indigno desse amor sonhado
Minha criança não entendeu o mundo "de lá"
Eu só conheci o pequeno universo em que vivi
Então era óbvio que todos tinham um pai-conceito
Mas eu não, você não foi essa figura, e a culpa...
Ah! Essa culpa era toda minha!
Você não soube ser pai e eu não aprendi a ser filho
Crescer foi aceitar esse luto, entender a orfandade de pai vivo
E essa culpa que carreguei foi virando raiva
E a raiva, virando ódio, e o ódio gerava culpa
Um ciclo maldito de infortúnios
Afinal eu não queria sentir ódio, ninguém ativamente quer
Até que tudo isso virou indiferença, a morte final de todos sentimentos
Cansado da canseira emocional, eu finalmente escolhi não sentir
Mas não tem como não sentir, indiferença seletiva não existe
Então concentrei todos os meus esforços e intelectualidade em não ser outro "você"
Passei boa parte da vida fugindo da sombra daquilo que me remetia às suas atitudes
Já que você não estava pra me ensinar o que ser
Me apeguei a te usar de exemplo para saber o que não ser
Só que essa conta nunca fechou
Afinal, eu não te conheço, você nunca esteve lá
Do mesmo jeito que minha criança só tinha um conceito do que queria de um homem
Meu adolescente só tinha um conceito de tudo que não queria de um homem
Por fim, não querendo ser você, não fui nem mesmo eu
E o peso dessa sombra ainda me acompanha
Meu eu adulto ainda se pega pensando e repensando
"Acho que ele faria isso, vou agir diferente"
E nisso, vou deixando de viver e fico só...


Pensando



Talvez você nunca tenha querido ser pai de novo
Talvez eu fosse só um sacrifício que Deus te deu, como sugere o nome
Um que, tal qual no original, não podia ser sacrificado
Te sobrou o sacrifício vivo e a não-vontade paternal
Se eu fosse um filhote de gato, talvez pudesse ser jogado aos leões, em troca de ingressos pro circo
Mas eu estou aqui, com meus medos e coragens
Eu, minha consciência e a essa "sua" sombra que criei e projetei sobre mim mesmo
Sigo te desconhecendo, órfão de pai vivo
Por muito tempo me esqueci até do óbvio
Esqueci que pra viver eu não preciso ser ou não ser igual a você
Só preciso sair dessa sombra
Só preciso ser... Izaque



Como se só isso já não fosse difícil pra um caralho.

quarta-feira, 18 de março de 2026

34

Olha lá, já vem chegando o barco trinta e quatro

Trouxe com ele um brilho prateado

A colorir estes ora tão negros mares

Veio de repente sem sequer me dizer olá

Com a força de um abraço a me tocar

Já sou marujo cansado, mas resta muito a seguir

Sem pressa de chegar, aprendi a aproveitar a viagem

Vejo o barco vinte e um, quando eu não era assim

Lembro de quando quase caí da proa

Pensava ser mais rápido chegar a nado

Pensava ser melhor chegar a nada


Não pensava


Aprendi no mar tudo que sei e o que não sei

Principalmente o que não sei, mas me ensinaram

Agora, continuo sem saber se é o bastante

Sigo sem perceber as ilusões e redirecionar o leme

O bastante, a Verdade é que nunca é

Há mais aos olhos do que posso ver

E se não vejo, pra quê procuro então?

Me apego aos cenários na ilusão do não saber

Há muita beleza, afinal, muitos sentimentos, também

O coração sente o que os olhos não vêem

Sigo segundo, agora sem pressa, nunca primeiro


A juntar meus segundos num dia inteiro





quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Desejos

Quero mergulhar nas tuas ondas pretas

Me afogar na realidade de teu abraço

Sentir o calor do morango em teus lábios 

Queimar de amor em teu cometa


Quero refletir o teu sorriso de canto de boca

Traçar cada curva de seus caminhos

Me perder sem pressa no universo de teu olhar

Te sentir estremecer ficando louca


Vem, vem aqui, vem

Vem cair no céu comigo

Vem bailar no além


Vem que te sou abrigo

Vem sorrir e gritar também

Alheios, num êxtase de amor antigo

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Altar

No meu céu há um universo de estrelas

Muitas nascem e outras tantas desaparecem,

Mas há uma que está sempre por ali

É uma estrela de metal, opaca, de cinco pontas

Ela não se vai, permanece sempre a me olhar

Às vezes, parece que me julga,

Às vezes, parece que me acalenta

Uma vez, essa estrela já foi a guia do meu céu

Hoje, ela se tornou uma lembrança de um caminho

Um caminho que não trilhei, um que deixei sonhando

Mas sempre há outras estrelas no céu

Algumas chegam do nada, me iluminam, aquecem até

Mas estrelas são grandiosas demais para um humano

Eu não as tenho e elas também não me têm

Não se pode prender o brilho de uma estrela

Então eventualmente elas se vão, a iluminar outro céu

Mas sempre fica aquela lembrança opaca, metálica, de cinco pontas

Pego essa estrela cinza e a coloco carinhosamente sobre minha mesa

Algumas estrelas são sementes, outras são pedras

Não importa, porque todas florescem em meu coração

Faço delas a minha prece, um altar particular 

Um altar que me guia aos caminhos que não trilhei,

Mas que definitivamente um dia sonhei trilhar

Um altar que me lembra do brilho do amor

E esse brilho sim perdura, nunca se vai ou opacifica

Por isso sempre rogarei a esse altar de metal

Pois nele constato que enquanto amar, serei eterno


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Colo

De repente me vi carregando esse menino nos braços
Seguíamos por uma estrada larga e desolada
Não sabia onde ela me levava, eu não precisava saber
Em certo ponto cheguei a várias bifurcações
Uma miríade de caminhos se apresentava
A criança chorava, queria ir para o caminho da direita
Nele havia muitos balões coloridos, flores e borboletas
Mas esse caminho estava bloqueado por uma barreira
Na barreira, vários avisos sinalizavam perigo
"Cuidado: loucura"
"Cuidado: fantasia"
Fiz o que um adulto faria, decidi pelo seguro
O medo também leva ao autofalsocontrole, afinal
A criança se recusou, saltou do meu colo e ficou
Emburrada, se recusou a seguir comigo
Também não me esforcei em convencê-la
Nos separamos, deixei de sonhar e comecei a dormir

***

Acordei no colo do meu irmãozão
A gente tava numa estrada gandona
Essa estrada era lindona, colorida
Eu tava feliz, tudo era novo e brilhava
Amava meu irmãozão e ele me levava com ele
Era tudo simples e com cheiro de roxo
Teve uma hora que a estrada ia pra vários lados
Tinha um lugar lindo, mas o irmãozão não quer ir
Ele falou que tinha bicho-papão lá
Mas eu só via uns balões bonitos
Eu chorei, porque queria ficar
Fiz birra, teimei, e não fui com ele!
Fui correr atrás de umas borboletas
Muito mais legal
Mas quando olhei pra trás, não vi mais o irmãozão
Eu acho que ele foi buscar uma espada pra matar o bicho-papão
Só que já faz tanto tempo...
Tô com fome, e com medo de ficar sozinho aqui
Mas meu irmãozão não ia me deixar aqui
Tenho certeza que jajá ele volta pra me buscar
É só eu segurar esse balão e esperar



domingo, 18 de janeiro de 2026

Sequestro

Roubam a cor da pátria como quem a tortura

Escondem sob a bandeira o vazio de seu ser

Bradam "nação" em voz sempre dura

Mas não têm pelo povo o menor bem querer


Um clamor doente, que segrega e aparta

Amam o mapa e odeiam os vizinhos

Patriotas de mesas bem fartas

Enquanto seus irmãos padecem sozinhos


Vomitam "justiça", "moral" e "bons costumes"

Mas comem continência aos senhores de lá

"À mim, dividendos e lucros. Ao povo, o chorume"

Desde que prosperem, não lhes importa o que virá


Eu amo minha terra — Minha mãe e madrasta

Mas fui roubado da fé e do orgulho

Sinto calado, pra não parecer de tão ignóbil casta

Levaram meu presente, sobrou só o embrulho


Nao me dê parte nessa perversão ilusória

Que cala o amor com a força de um hino

Que troca soberania em escória

Não me confunda com patrícios assassinos


Me resta a saudade do amor nacional

De quando eu via no outro a mãe gentil

E por isso aqui berro — Em lucidez irracional

Saiam! Saiam! Vão-se embora e nos devolvam o Brasil!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Nó de pedras

Do calor da forja de Hefesto fez-se com refrega,

Um cão-tempestade que sempre abate sua presa,

Enviada por Poseidon de suas profundezas,

Emergiu-se a raposa que nunca será pega.


Do encontro destes poderes distintos,

Nasce o Destino de uma caçada eterna,

Destes seres que desafiam a lógica humana,

Um arquétipo perfeito do problema infinito.


Se um sempre alcança a meta pretendida,

E a outra do laço do captor se desgarra,

Em que ponte a lógica se amarra?

Se as forças são iguais e a queda é repetida


Na Grécia antiga, Zeus resolveu a confusão,

Limitou a paz em pedras, eternizadas nos céus,

Daqui do chão, divago sobre o fim que não se deu:

O que fazer quando eu mesmo sou raposa e cão?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Chronos — Ou crônicas sobre o Eternalismo

Imagino que a passagem do tempo não existe

O Tempo em si define minha existência

Nele permaneço – aqui e agora – consciente de mim

Só que assim também define a minha inexistência

Em algum lugar do Tempo eu ainda nem nasci

Em algum lugar do Tempo eu já morri

Ainda assim, em algum lugar do tempo, permaneço

Estou tão vivo quanto morto, presente e ausente

Todas as opções ao mesmo tempo NO Tempo


Imagino que o Tempo é um bloco que SEMPRE existe

Estático, nele tudo existe e inexiste, tudo permanece

Não há opção de escolhas, só a ilusão delas

Pois se já morri e também ainda nem nasci...

Minha vida toda já está e não está no Tempo

Sem escolhas, sem alterações, só um texto num livro

Desesperador? Talvez. Determinista demais? Talvez

Minha consciência transita só por pequenos pedaços

Limitada, incapaz de lembrar do que chamo de futuro

Como uma memória passageira, de carona


Abençoado com uma amnésia temporal

Não vejo como morri e nem sinto a dor de nascer

O próprio conceito de morte e vida não me cabe mais

No Tempo sou eterno e ainda nem sou

Nesse livro do Tempo: permaneço




domingo, 4 de janeiro de 2026

A Promessa

Lá no alto há um céu que me inspira

Evocando a promessa dum amanhã colorido

Nuvens cor-de-rosa pintando a altamira

Um convite à esperança, um refúgio do lúrido


Ali no alto há um céu que me aflige

Nas ondas de rádio: sinais de fumaça e zumbido

Bombas caem e destroem o que suadas mãos eligem

Um convite à incerteza, um destino dolorido


Do mesmo céu que inspira cai a morte

Da mesma mão que alimenta vem o tapa

Parece que não há pressa em ser feliz

Só que o mal não espera e se impõe forte

O tempo não para e por entre os dedos nos escapa

Relegada ao fim está a recompensa motriz


E a vida vai ficando para os pós-créditos

Na barganha do trigo pelo pão

"Vendido!" — À preço de petróleo banana

Enquanto bilhões se esvidiam na espera do inédito

Num filme que só se vê coadjuvante em inação

O sonho do céu é a extinção da águia americana





Gaivota glorificada

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Infinita Highway

"A ausência de amor na infância causa traumas" — isso já é um assunto falado à exaustão na sociedade, por curiosos, psicólogos, religiosos, familiares e até coaches.


O que pouco se fala é sobre o excesso.


A presença constante do amor na infância também deixa traumas, tão grandes ou maiores que os causados pela ausência. Amor em excesso sufoca, como uma força gravitacional extrema que vem de todos os lados, te molda no formato esperado pelo amor que nem era seu, afinal, crianças não sabem o que é amor, aprendemos, e quando a lição é severa, criamos um dever oculto em nós. O dever de caber na moldura que nos foi apertada, é um desenvolvimento controlado, por fontes externas.


Crescemos, viramos adultos, funcionais ou não. Muitas vezes não temos muita noção do que nos ocorre, porque somos uma fotografia que não tiramos numa moldura que não construímos. E ainda assim, isso é tudo o que somos. Não sou niilista a ponto de não me reconhecer no que sou hoje, mas também não estou tão dormente a ponto de não perceber que muito do que sou não veio de mim. A questão é balancear e entender quais partes da sua fotografia você gosta e quais não. É preciso tesoura, cola e certa habilidade, recortar partes da fotografia que tiraram de nós e colar no lugar partes da que você mesmo tirou.


E esse papo é bem polêmico, não é algo que a sociedade aceita tão bem. Afinal, reclamar que recebeu amor parece apenas ressentimento e ingratidão. É preciso falar sobre amar demais, as pessoas parecem desconhecer esse conceito. E acaba que se você surfar nessa onda de julgamento, acaba se julgando também, se culpando por ser apenas uma fotografia.


"Mas o que fazer, então?" Pois é, não sei, se descobrir me avisa.

Por enquanto, só faço terapia mesmo.

sábado, 22 de novembro de 2025

Ártemis

Teus passos ecoam sua independência irrestrita

No seu olhar, mora a graça que a montanha ostenta

Da sua aura, emana a Deusa Virgem que de amor se inventa

Como uma força natural, se faz na flor mais bonita


No breu da noite, tua silhueta o luar me dita

Me atento a cada palavra, conforme a luz me orienta

Você é mais que só carne, é espírito que nutre e alimenta

Você se basta e se transborda, não depende de ninguém em sua vida


Ainda assim, você me ama e me aproxima

Com pureza, ao mesmo tempo é caça e caçadora

Na sua presença reluz a força de uma menina


Junto ao respeito de uma grande mulher batalhadora

Seu destino é a grandeza do universo que você ilumina

Você não me precisa, e por isso estarei aqui a toda hora

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Frank (e os outros)



Esse é Frank. Frank Einstein.


Frank nasceu igual a qualquer outro nesse mundo, mas Frank cresceu diferente, ele nunca conseguiu se encaixar completamente no meio dos demais, não sabia dizer o porquê, mas sentia-se diferente.


Os outros também percebiam Frank de forma diferente, talvez ele fosse realmente diferente, ou talvez ele estava a maior parte do tempo perdido em pensamentos sobre como ele não conseguia se identificar totalmente com os seus semelhantes, e isso gerava ainda mais estranheza nele, e para os demais também.


Fazendo jus ao seu sobrenome, Frank era de fato muito inteligente, com uma mente incrivelmente analítica, ele passava boa parte do tempo apenas prestando atenção, analisando tudo, inclusive a si mesmo.


Mas há algo de curioso no tempo: ele passa. E enquanto Frank pensava, o tempo passava, como era o natural para ambos.


Frank não se formou, ao invés disso, pensou. Frank precisou trabalhar, como todos os outros. Frank continuou pensando muito, enquanto trabalhava. Agora pensava se pensar demais o prendia ao tempo.


Frank pensava que seu trabalho era pequeno demais para a escala da grandeza universal, e isso lhe trazia ainda mais pensamentos. Pensava que se isso era tão insignificante, porque ele perdia muito do seu tempo fazendo-o? E enquanto pensava (e trabalhava) o tempo passava.


Frank se viu velho, sem entender muito todos seus pensamentos, seu trabalho ou sua própria existência, pensou que aquilo era o que os outros chamavam de "crise", mas dessa vez ele fez o que os outros não faziam.


Frank começou à fazer terapia.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Māyā

Que dor é esta que de repente me veste?

Me apego à um sol que brilha em outro além

Vivo um luto mudo que nunca me esquece

Sigo essa sombra, sem saber de quem


E esse seu sorriso que se faz luz e me devora

É o sonho lindo de um despertar sofrido

Pois sei que em você meu amor não amora

E só me resta o querer e a negação dos meus sentidos


Ignoro a voz que me grita: "Deixa ir!"

É a voz da razão, que me fere e depois pede perdão

Mas o coração não vê senhor senão a si

Obedece só seu próprio querer, em pura emoção


E agora, como arrancar essa raiz sem fim?

Nó na garganta e medo de perder o que nem possuo

Nesta doce prisão, sou carcereiro de mim

Acabo na eterna fuga do sentir, um forçoso recuo


Meu espírito teimoso e desmedido se perde

Um conflito perfeito entre o que preciso e o que sinto

A liberdade acena, mas a alma não cede

Ainda te busca, nesse sentimento-instinto

 

Prendo-me ao frágil fio dessa ilusão

Perdidamente atado à uma teia de aranha sutil

Me debato, enquanto a vida me demanda mais ação

Até que desisto, à espera de um devorar sombrio


No fim, só perambulo pelo limbo do querer e do partir

Amante do vazio, sem conseguir preencher ou deixar o sentir

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Ter a pia

Ter a pia cheia de louças é engraçado

Muita coisa pra lavar, mais ainda pra organizar

Eu, racional que sou, tentei catalogar tudo

Comecei pelas louças que me faltaram

E vi que apesar de me acostumar a não tê-las...

Eu as queria, muito. Pois é, chorei lavando louças

Ah Platão! Seu safadinho sorrateiro...


Prossegui pelas louças que guardo bem escondidas

Essas são muito trabalhosas de se lavar

Pois de tão escondidas, não lembro onde as deixei

Algumas eu nunca nem vi

São difíceis de encontrar no meu armário

Fazer o quê... eu sou um bom "escondedor"


Agora, cheguei até às louças que me sobram

Louças que sempre estiveram ali

E algumas, de tão belas, cortam

Laceram os dedos cansados

Cansados de tatear o vazio das louças que não tenho

Ou tatear o escuro em busca das louças que guardei

Algumas louças eu nem precisava ter

São tantas que, literalmente, me sobram

Louças que eu não precisava ter que lavar

Mas em algum momento as comprei

E agora preciso lavá-las, ou alguém um dia precisará

É preciso lavar, é preciso ter a pia limpa



E isso não é sobre ter a pia cheia de louças


quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Breu

Há medo do mergulho na água escura

Numa piscina sem borda, além da vista

É à paixão que a alma resiste e se assusta

Sem saber se há fundo ou se há altura


Se no breu se esconde doce formosura

Ou se há dor na minha sede de vontade

Meu passo incerto paralisa em vaidade

Mergulho em dúvida de uma entrega pura


Se a luz da confiança não acende

Sem a firmeza de um amparo amigo

Se a mão de quem se espera não estende


O coração faz casa na beira do sentir

Temendo nesse abismo eternamente cair

Ando pra trás buscando a segurança de um abrigo

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Rubor

O amor do nada enrubesce
Esquenta sem razão nosso peito
Dá um frio gostoso na barriga
Revela a ilusão do controle
E mesmo com tantos "sintomas"
A gente gosta tanto que se esquece
Que o melhor vai acontecer, de qualquer jeito
Sofremos antecipando o pior, num medo bobo
Quando só temos que nos entregar
Sem metades, por inteiro, alma e corpo
Aproveitar os abraços e cada segundo de tempo
Deitar ao lado do seu amor e deixar de ser um, só
Virar dois, pelo tempo que for possível
Pelo tempo que for impossível, também
Viver amando, amar vivendo, num ciclo eterno
De eterna ternura, chamegos e reciprocidade
Sinceridade de almas, cheiro de primavera
Unidos pelo divino até voltarmos ao pó
Sonhar juntos sonhos diferentes
Realizar juntos sonhos recorrentes
Unir o eu ao você
Para se deleitar no nosso

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Morada

Teu riso é o mapa que no escuro me guia
Onde a palavra tem peso e verdade
Teus olhos são luz que afastam toda ansiedade
Tua presença rege meu peito em sinfonia

Apresso o tempo quando tu não estás
Rogo ao vento que te traga e leve o silêncio embora
E quando vem tua música, rogo que não passe a hora
Dançarei na tua voz a ecoar em meu corpo fugaz

Quero morar na profundidade de nossas conversas
Onde o mundo não importa e só a gente é real
Onde o sentido não precisa se explicar

Apenas nós dois em palavras modestas
Te quero viver, por ti quero ser, um amor natural
Sentir a beleza de te morar e de também te ser lar

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Antes do já

Às vezes o tempo me engana

Quando parece que foi há tanto

Sinto que tem mais que uma semana

E quando vejo a realidade, me espanto


"Há 35 minutos atrás"

Surge um medo tolo da minha intensidade

Medo de acabar por ser demais

Medo por não saber dosar a vontade


Pensamentos infundados e que levam ao nada

Afinal esse sou eu, e não há como se negar

Penso, sinto, vivo... Sou o respiro antes da remada

E se assim eu sou, por que esse medo de voar?


Sentimentos são irresistíveis

Eles vêm, quer queiramos ou não

Sem aviso, sem alerta, incríveis, invisíveis

E no fim de tudo sobra bem pouca razão


Resta apenas uma certeza final

Que independe de razão para existir

Eu sei que ter esse medo é normal

Preciso só relaxar e me deixar sentir