segunda-feira, 9 de julho de 2018

Leoa de fogo

Desde curumim o pajé já me dizia:
"Cum fogo curumim num deve mexer"
E isso é daquelas coisas que se leva pra vida
Até que você se revelou a mim:
Fogo feito gente
O calor de um vulcão em um abraço
Um sol inteiro entre seus lábios
Me queimo e me derreto em seu laço
Coração carboniza alegre, bate tão forte que me derrete
Aquece minha alma, queima minha boca

Ao ver seu sorriso de fogo, como salamandra ardente
Sinto a mesma alegria de acordar e vislumbrar o sol pela manhã
E eu que sou feito de ar, me incinero e brilho de contente
Provo do sabor da lava quente
Sinto seu espírito incandescente
Me deleito em sua aura que irradia brilho reluzente
E sem saber o que fazer, me concentro no rugido distante que me diz:
Vem!
Vem!
Sem medo... Vem!

Meu coração-tambor bate em chamas
Primitivo, ardente, fogo líquido que me inflama
Me queima e me renova
Sem medo
Eu vou!
Sem volta
Eu vou!

por Izaque Valeze

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Filho do Diabo

Sabe quando a vida traz à sua porta a oportunidade de você resolver um grande problema antigo?
Duas vezes.
Sabe quando você chega cansado do serviço e não quer mais nada além de só espairecer a mente?
Todas as vezes.
Essa é a sensação que tenho quando você aparece sem avisar na porta da minha casa, num dia útil.
Eu estou cansado demais pra resolver você.
Covarde que é...
Você não resolveu seus problemas enquanto você podia, enquanto eu precisava.
Você nunca vem aqui sozinho.
Covarde que continua sendo...
Covarde que sou, eu deveria estar falando tudo isso na sua cara, mas não estou.
Talvez eu seja mesmo até mais covarde que você, mas só nesse assunto.
Ou eu só esteja cansado.
Ou de saco cheio.
Ou eu não tenha a obrigação de resolver um problema que eu não criei.
Ou as quatro coisas de uma vez.
Então eu tenho que mentir, inventar números e histórias.
Por não querer resolver um problema que nem é minha culpa, por alguns momentos me torno essa pessoa pior, e ainda me culpo tolamente por isso.
Mas o importante é que os números não importam nessa vida.
Eu me importo mesmo é com o que sinto na alma.
Toda vez que você vem aqui, você rouba um pouco da minha paz de espírito.
Ela definitivamente não foi fácil pra eu conseguir de volta.
Isso não é legal.
Então pare de me roubar, siga teu rumo, vá ser feliz longe de mim.
Quando um dia eu tive a ilusão de sentir sua falta, você não estava lá.
Se agora sua consciência pesou, a minha está liberta.

Maldito.


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Nightmare?

Acordo e ao abrir os olhos tudo permanece escuro
Fecho-os, esfrego-os e tento uma vez mais... Mesmo resultado
Começo a ficar paranoico e acho que estou cego
Continuo esfregando-os, agora avidamente, em busca da luz
Lágrimas, ardor e pânico se tornam minha realidade
Com a agonia de poucos minutos minha esperança morre
E então eu vejo algo em meio à escuridão

Dentes pontiagudos, garras afiadas, couro no lugar de pele
Uma foice aparece empunhada por sete mãos firmes
Eu noto uma arma que eu não tinha quando fui dormir
Desesperado, eu saco e atiro!
Uma, duas, quatro, incontáveis vezes

De alguma forma, chamei a atenção da criatura
Ela se aproxima lentamente, determinada
Eu sigo atirando, com munição infinita
Ela está sangrando muito, mas é como se não se importasse
Eu desisto de atirar, começo a correr
Dou de cara numa parede... Seria um labirinto?

Não há escapatória
Eu vejo o brilho da foice cruzar meus olhos
Sinto, dilacerando minha carne e meu espírito
Não sinto dor, não sinto raiva, não sinto nada... Paz completa
E então uma criança pálida ri como um bater de asas



quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Bons Sonhos

Sabe aquela brisa calma da manhã que num bater das asas da Fênix vira um furacão? Sim, aquela brisa-tempestade que de tão incomum alguns dizem que não existe? Pois então, eu a encontrei naquela sua gargalhada inconfundível e me senti com sorte, tamanha a felicidade de vivenciar tal raridade.

De feliz me amarrei em sua corrente e comecei a rir também, ria tanto que não conseguia mais parar, e, de repente, todo ar que eu podia respirar e todo riso que eu podia dar vinham dessa brisa-tempestade, qualquer outro ar era venenoso e poluído demais para meus pulmões... Se eu me afastasse do furacão, morreria sem ar, e se me aproximasse demais, seria engolido por ele, me vi alegremente sem saída... Veja só, quem diria, viciei no teu ar maluco!

Pensando bem, talvez ser engolido e continuar respirando fosse minha melhor saída... Mas só talvez. Mesmo assim, só me joguei... O que faria depois eu decidiria no calor do momento, e então nadei pelas correntes de ar de seu riso, alegremente esperando ser engolido, ansioso, amedrontado, entregue.

Mas você... Você não me engoliu! Você rodopiou ao meu redor, rindo, me descabelando, me girando em emoção, mas sempre me deixando com a sensação gostosa de perigo iminente, como quem anda sobre um vulcão adormecido, um misto viciante de maravilha e perigo.

E desde então eu sigo surfando as correntes de ar desse furacão maluco, prestes a morrer de alegria a qualquer momento, prestes a qualquer prestar do destino, perigo iminente, amor iminente.


sábado, 28 de outubro de 2017

Não passa passarinho com pressa, ferro ou fogo no pasto (nem a uva passa)

Cadê aquelas dunas quentes que paisageavam o deserto desolado de meu olhar? Cadê aquele meu oásis sonhado, que, de tão distante, agora já nem vejo? Onde foi parar aquele vislumbre juvenil do horizonte intangível que eu vivia para imaginar? Cadê aquelas horas em que eu divagava devagar, deveras atarefado em meio aos deveres diários diversos, vivendo meus desejos vivos em vívida esperança?

O tempo trouxe consigo aquela velha companhia manjada, velha de idade e vaidade, levou o brilho de meu no olhar e o mundo já não me surpreende mais, trouxe aquela doença chata que troca a perspectiva do amanhã colorido pelo cinza moroso da cidade... E a gente se acostuma, e já não vive sem sofrer com os mesmos dilemas morais.

Dói lembrar que um dia eu fui jovem, inocente e pueril.

Hoje tudo me parece tão distante, uma vaga lembrança de dunas no deserto um dia sentido, dunas modificadas pelo vento, e nunca nada será mais o que um dia já foi (ou fingiu).

Mudar deve ser normal, afinal... Perder parte de sua essência e substituir por mais mentiras desmedidas, mas o tempo também faz você perceber algumas coisas não vão mudar, você descobre a fantasia real: aquela que te move, que te alimenta e te faz vivo.

O certo cheiro, o certo toque, o certo certo.



E nada pode impedir o futuro que virá.