Você sempre me foi ausente
Quando você não estava eu te queria
E quando você vinha, eu percebia:
Não era sua presença que me faltava
Era o conceito, talvez o mais puro que a criança tem
O ideal de um pai que ficou só nisso mesmo: nas idéias
E assim passei a primeira infância na ânsia do te querer
E na decepção do te encontrar
Em meio aos gritos, brigas e socos na mesa
Morria um conceito, morria um pai que eu sonhava
Isso é muito fácil perceber hoje
Mas não pra criança, essa não sabe de nada a não ser sentir
E na confusão do não saber, eu senti
E senti muito, e todo esse luto foi internalizado
Afinal, se só eu não tenho esse pai-conceito, obviamente a culpa é minha
Talvez devo ser indigno desse amor sonhado
Minha criança não entendeu o mundo "de lá"
Eu só conheci o pequeno universo em que vivi
Então era óbvio que todos tinham um pai-conceito
Mas eu não, você não foi essa figura, e a culpa...
Ah! Essa culpa era toda minha!
Você não soube ser pai e eu não aprendi a ser filho
Crescer foi aceitar esse luto, entender a orfandade de pai vivo
E essa culpa que carreguei foi virando raiva
E a raiva, virando ódio, e o ódio gerava culpa
Um ciclo maldito de infortúnios
Afinal eu não queria sentir ódio, ninguém ativamente quer
Até que tudo isso virou indiferença, a morte final de todos sentimentos
Cansado da canseira emocional, eu finalmente escolhi não sentir
Mas não tem como não sentir, indiferença seletiva não existe
Então concentrei todos os meus esforços e intelectualidade em não ser outro "você"
Passei boa parte da vida fugindo da sombra daquilo que me remetia às suas atitudes
Já que você não estava pra me ensinar o que ser
Me apeguei a te usar de exemplo para saber o que não ser
Só que essa conta nunca fechou
Afinal, eu não te conheço, você nunca esteve lá
Do mesmo jeito que minha criança só tinha um conceito do que queria de um homem
Meu adolescente só tinha um conceito de tudo que não queria de um homem
Por fim, não querendo ser você, não fui nem mesmo eu
E o peso dessa sombra ainda me acompanha
Meu eu adulto ainda se pega pensando e repensando
"Acho que ele faria isso, vou agir diferente"
E nisso, vou deixando de viver e fico só...
Pensando
Só
Talvez você nunca tenha querido ser pai de novo
Talvez eu fosse só um sacrifício que Deus te deu, como sugere o nome
Um que, tal qual no original, não podia ser sacrificado
Te sobrou o sacrifício vivo e a não-vontade paternal
Se eu fosse um filhote de gato, talvez pudesse ser jogado aos leões, em troca de ingressos pro circo
Mas eu estou aqui, com meus medos e coragens
Eu, minha consciência e a essa "sua" sombra que criei e projetei sobre mim mesmo
Sigo te desconhecendo, órfão de pai vivo
Por muito tempo me esqueci até do óbvio
Esqueci que pra viver eu não preciso ser ou não ser igual a você
Só preciso sair dessa sombra
Só preciso ser... Izaque
Como se só isso já não fosse difícil pra um caralho.
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