terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Infinita Highway

"A ausência de amor na infância causa traumas" — isso já é um assunto falado à exaustão na sociedade, por curiosos, psicólogos, religiosos, familiares e até coaches.


O que pouco se fala é sobre o excesso.


A presença constante do amor na infância também deixa traumas, tão grandes ou maiores que os causados pela ausência. Amor em excesso sufoca, como uma força gravitacional extrema que vem de todos os lados, te molda no formato esperado pelo amor que nem era seu, afinal, crianças não sabem o que é amor, aprendemos, e quando a lição é severa, criamos um dever oculto em nós. O dever de caber na moldura que nos foi apertada, é um desenvolvimento controlado, por fontes externas.


Crescemos, viramos adultos, funcionais ou não. Muitas vezes não temos muita noção do que nos ocorre, porque somos uma fotografia que não tiramos numa moldura que não construímos. E ainda assim, isso é tudo o que somos. Não sou niilista a ponto de não me reconhecer no que sou hoje, mas também não estou tão dormente a ponto de não perceber que muito do que sou não veio de mim. A questão é balancear e entender quais partes da sua fotografia você gosta e quais não. É preciso tesoura, cola e certa habilidade, recortar partes da fotografia que tiraram de nós e colar no lugar partes da que você mesmo tirou.


E esse papo é bem polêmico, não é algo que a sociedade aceita tão bem. Afinal, reclamar que recebeu amor parece apenas ressentimento e ingratidão. É preciso falar sobre amar demais, as pessoas parecem desconhecer esse conceito. E acaba que se você surfar nessa onda de julgamento, acaba se julgando também, se culpando por ser apenas uma fotografia.


"Mas o que fazer, então?" Pois é, não sei, se descobrir me avisa.

Por enquanto, só faço terapia mesmo.

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