Olhe para cima
Em um lugar onde a Noite é nada mais do que uma lenda contada pelos velhos e que o Dia é regra natural juntamente com o reinado perpétuo do Sol Escaldante, mais um dia ferve como de costume, porém, ao olhar com cautela, uma poça d'água se apresenta isolada em meio ao asfalto rachado, como que se fosse de outro mundo ou tivesse sido formada por mágica.
Um menino, descalço, magro e frágil, aproxima-se curioso. O tempo passa sem parecer. Por algumas horas o menino observa a passividade daquela substância desconhecida e se queda relutante em tocar sua superfície. Mas a curiosidade infantil sempre vence as piores inseguranças: leve e vagarosamente o menino encosta a ponta do dedão do pé na água e o deixa tocá-la somente por alguns mili-eternos-segundos e, surpreendentemente, nada acontece. Tomado pela incrível coragem que surge do nada o menino agora sente-se dono da audácia e, decidido como jamais antes na vida, coloca seu pé, por inteiro e de uma só vez, dentro da poça. A despeito da realidade do entorno, a água está gelada como... como... é inexplicável, o menino nunca sentiu algo como aquilo. A princípio, eriçam-se até os últimos dos fios de cabelo do menino e ele sente novamente o medo, mas com o tempo a até então desconhecida sensação do frio lhe parece maravilhosa, de outro mundo, mágica.
É então que a água passiva já não está mais tão passiva, mas sim turbulenta, circular, até parece que gira. E gira! Um redemoinho feroz dentro de seu buraco-recipiente não maior que dois pés do menino. Imediatamente o medo faz com que o menino retire o pé, ou que pelo menos tente, sem sucesso. Aos poucos aquela coisa de outro mundo puxa o menino para dentro do buraco, que luta sem sucesso para tentar escapar. Não demora muito e o menino já foi puxado até o torso, e com mais um pouco tempo ele desaparece buraco adentro.
Escuridão, medo, angústia, agonia e pensamentos de uma morte onde não se perde a consciência afligem o pobre menino. Então era isso, era assim que tudo acabava.
Mas, de repente: luz!
O menino sente um leve puxão em seu dedo indicador, imediatamente olha para baixo para ver do que se trata e se depara com um pequeno ser azulado, de orelhas pontiagudas usando um gorro verde para cobrir seus únicos três fios de cabelo, que teimam em aparecer mesmo assim. O pequeno ser puxa seu dedo novamente, dá um risinho e acena para que o menino o siga. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, mas sem sentir-se ameaçado, o menino resolve por segui-lo. É então a primeira vez que o menino olha ao seu redor desde que tudo deixou de ser tão escuro e a agonia se foi. A paisagem que vê é extraordinária e jamais havia sido vista por ele: uma floresta de pinheiros que de tão altos parecem tocar um céu esverdeado com nuvens pálidas, quase como fumaça. Ao seu lado direito há muito mais daquela substância estranha que o puxou buraco abaixo correndo no que parece uma grande vala, mas essa substância é diferente da outra: é avermelhada e exala um cheiro doce como mel. Ele deveria sentir medo, mas não sente. Insetos de todos os tipos voam ao vento, sem obrigações ou deveres, somente seguindo o fluxo dessa substância, para onde quer que ela os leve, pois ela parece mudar de direção a cada nova olhada. Impressionado e maravilhado com todo esse novo mundo o menino move-se devagar, pois é impossível ir mais depressa sem olhar cada detalhe, afinal ele não quer perder nenhum. Sua admiração é tanta que ele não pensa em como foi parar ali, nem em como seu corpo inteiro passou por um buraco não maior que o tamanho de dois de seus pés. O pequeno ser porém está apressado, e continua a puxar seu dedo e a acenar para que ele ande mais depressa a cada vez que para. Nesse ritmo de breves paradas para observação, puxões e acenos os dois seguem em meio ao ar carregado de esporos dourados que brilham com a luz, andam por uma trilha tortuosa até chegarem em um pequeno morro numa clareira da floresta.
Eles sobem o morro mais vagarosamente e, ao chegarem no topo, o pequeno ser novamente puxa o indicador do menino, e dessa vez aponta indicando para que olhe para baixo, e ele assim o faz e então vê duas grandes pedras, não do mesmo tamanho, mas grandes. Na maior delas encontra-se sentada uma belíssima mulher também de pele azul bem claro, quase transparente, que escova seus longos cabelos verdes. O menino logo nota orelhas pontiagudas surgindo levemente por entre seus cabelos, o que não o surpreende mais, pois tudo naquele mundo já era de alguma forma muito familiar para ele. A mulher para por alguns instantes e somente se escuta o sussurro silencioso dos pinheiros ao vento, ela observa o menino e então diz, numa voz doce, mas que soa como um turbilhão:
-Bem vindo, hóspede. Sente-se. - aponta a pedra menor que está vazia - Hoje o Dia e a Noite são seus.
O menino somente assente com a cabeça, pois sua voz seria vergonhosamente feia depois de ouvir tão belo som saindo da boca de tão belo ser. Ao que o menino senta-se, a bela mulher solta um leve riso e exclama dirigindo-se ao pequeno ser azulado:
- Ótimo! Já podemos começar, Finganforn!
Finganforn então dá o assovio mais estridente que o menino já havia escutado em sua vida e este ecoa por toda a floresta. Poucos instantes depois, o menino sente um tremor de terra, e o que parecia ser um terremoto na verdade ganha explicação ao que ele olha morro acima. Eis que surgem todos os tipos de criaturas jamais vistas por ninguém que o menino conhece marchando em direção às pedras: homens gigantescos com grandes barbas, lobos que andam em duas patas, seres meio-cavalo meio-homem, pequenos seres voadores que batem suas asas tão rapidamente que emitem o som de um farfalhar trazem todo o tipo de comidas extraordinárias, mas que parecem muito apetitosas ao primeiro olhar, há também muitos outros seres como Finganforn, de variadas cores, e aparecem até mesmo árvores que tem boca, olhos e que andam! São tantas outras infinidades de seres que o menino não sabe onde olhar. Tudo é maravilhoso, mágico. Aos poucos os seres se sentam e se acomodam, formando um círculo ao redor das duas pedras. O menino sente uma felicidade transbordante, sua vontade é de correr e cumprimentar cada um deles, mas ele mantém os bons modos que sua mãe lhe ensinou e permanece sentado.
Os pequenos seres de asas farfalhantes lhe servem frutas de formas engraçadas juntamente com uma caneca cheia daquele mesmo líquido avermelhado que corre sabe-se lá pra onde. Ele dá a primeira mordida e bebe um gole, todos os seres parecem olhar para ele com grande expectativa. Não demora muito e o menino se dá conta de que aquilo é a melhor coisa que ele já provou em toda sua existência, o sorriso que surge em seu rosto é inevitável. A reação dos seres que o observam atentamente também.
Gritaria e algazarra iniciam a festa.
Já há algum tempo que a diversão prossegue, tudo é novidade e maravilha, mas uma coisa ainda permanece e deixa o menino intrigado e ele que, com vergonha de sua voz ser feia ainda não havia dito uma palavra que seja, resolve perguntar à bela moça:
- Quando eu cheguei você disse que o dia e a noite eram meus, mas o que é a Noite?"
Como se não somente ela, mas todos o tivessem escutado, o silêncio surgiu repentinamente na festa. A bela mulher encarou o menino, confusa.
- Você não sabe o que é a Noite? Você nunca viu a Lua? - indagou ela.
- Não, de onde eu venho, só existe muito calor e luz e tudo sempre é dia.
Gargalhadas de todos os seres presentes ecoaram pela floresta.
- Como alguém nunca viu a Lua? - Disseram todos em uníssono.
- Ah! Coitadinho dele, nunca viu a coisa mais bela de todas as coisas! Pois em breve, menino, em breve você verá! - disse a bela mulher com sua doce voz turbilhonante.
O menino sorri, pois afinal de contas verá a coisa mais bela de todas as coisas! E se uma mulher tão bela havia falado isso, só pode ser algo mesmo muito belo!
A festa segue por mais algumas horas e tudo já começa a ficar escuro, o medo começa a atingir novamente o coração do menino, não quer voltar para aquela angústia de antes. A bela mulher percebe o medo estampado no olhar do menino e o consola:
- Acalme-se, a Noite está chegando e com ela vem a Lua.
Tudo está escuro novamente, e o menino não para de pensar que, se aquilo é a noite, todos estão errados. Não é a coisa mais bela de todas as coisas, mas sim a mais aterrorizante.
O medo toma conta do menino, e novamente ele sente um puxão no seu dedo indicador, olha para baixo e vê Finganforn, que aponta para cima. O menino olha relutante, e se depara com a coisa mais bela de todas as coisas: uma infinidade de pontos em meio à escuridão, brilhando como quem grita: "ei, olhe, eu estou aqui!". São tantos pontos, alguns formando desenhos divertidos ao serem ligados, que o menino quase deixa de ver Ela, a Lua. Um enorme círculo amarelo que ilumina toda aquela escuridão aterradora, trazendo esperança para seu coração amedrontado. Por horas o menino observa incessantemente o céu, aos poucos vai cansando-se, até que adormece.
O menino acorda ansioso para mais um dia nesse novo mundo fantástico, tenta dar um pulo para ficar em pé, mas não consegue. Ele se depara caído no asfalto fervente, descalço, com um de seus pés preso em um buraco, vazio, no chão.
Desde então todos que passam por aquela estrada podem ver um menino descalço, magro e frágil percorrendo toda sua extensão à procura do impossível: uma poça d'água no reino do Sol.
por Izaque Valeze
Foda! Contexto Thuata, Eragon e Pauliceia desvairada! Incrível, viajei lendo! Acho que um novo estilo te encontrou.
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