segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Devaneios de um Cruzado

E então o Cruzado derrama um pouco mais de sangue em nome do grandioso Senhor, agora ele já não vê a glória em fazer isso, e finalmente ele descobre o que não é errado. E todos os demônios amaldiçoados que tomaram posse da Santa Terra já são somente humanos como ele. E agora ele pode finalmente ver o quanto, apesar das diferenças, eles são idênticos. Porcos magros fanáticos que lutam por uma ordem que vem de porcos gordos gananciosos... Terra Santa? Tudo o que ele vê é areia e sangue... sangue e areia... sangue... sangue... falta água e sobra sangue. Ah! Quem dera ele pudesse transformar sangue em vinho. Ah! Quem dera ele pudesse beber sangue!
O sol de mil infernos queimava-o e tornava sua cota de malha uma grelha humana. Grelha que torturava-o e mantinha-o vivo, em rápido pensar ele se perde contando quantas vezes sua grelha o salvara e, quando volta a si novamente, ela o está fazendo uma vez mais. Ele vê porcos-homens-demônios-amaldiçoados gritando, mas não os ouve. Tudo o que ele ouve é o silencio constrangedor de almas se esvaindo, indo todas para o lugar que ensinaram-lhe ser o inferno, pensa ele. Muçulmanos ou Cristãos, todos os porcos-homens-demônios-amaldiçoados vão ao mesmo lugar quando morrem, todos viram a mesma coisa, as suas famílias também choram seus cadáveres. Eles também têm uma família.
E os que antes ele odiava, agora ele vê como irmãos. E entende agora o significado de Terra Santa.
Que outro lugar o mostraria o quanto os porcos-homens se deixam tornar demônios-amaldiçoados tão facilmente? Demônios-amaldiçoados que não sabem o verdadeiro motivo de lutarem, de matarem. Que outro lugar transformaria seu ódio em compaixão e pena? Areia. Terra. Sangue. Santa.
Satisfeito ele decide abandonar tudo aquilo. Os meios de se fazer as coisas nessa Terra não lhe eram atraentes. E então ele se vira, caminha entre os gritos silenciosos de almas que ainda não descobriram suas verdades, e se vai.
E ao verem-no na cidade gritam: DESERTOR! DESERTOR!
E o Senhor o abraça.
Forca.
Paz.



Dica musical para a leitura:

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